Backup Compliance LGPD: Guia Completo para Empresas
Compliance LGPD no backup exige criptografia dos dados pessoais, controle de retenção, registros de acesso auditáveis e capacidade de excluir dados sob requisição do titular.
Backup compliance LGPD: criptografia AES-256, retenção de dados, auditoria e penalidades de até R$50M. Como adequar seu backup à lei. Guia prático 2026.
Backup Compliance LGPD: Por Que É Essencial
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD — Lei nº 13.709/2018) transformou a forma como empresas brasileiras devem tratar dados pessoais. O backup compliance — a adequação da infraestrutura de backup às exigências legais — é um componente crítico e frequentemente negligenciado da conformidade com a LGPD. Embora muitas organizações foquem sua adequação em políticas de privacidade e consentimento, a infraestrutura de backup corporativo e recuperação de dados exige atenção especial.
Backups contêm cópias de dados pessoais de clientes, colaboradores, fornecedores e parceiros. Isso significa que estão sujeitos a todas as obrigações da LGPD: proteção contra acesso não autorizado, retenção limitada à finalidade, possibilidade de exclusão, e comunicação em caso de incidentes. Entenda os fundamentos no nosso guia prático LGPD e backup. Uma estratégia de backup que não considere a LGPD pode expor a empresa a multas de até R$ 50 milhões e danos reputacionais significativos.
A ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) tem intensificado sua atuação fiscalizadora, e empresas que não demonstrarem medidas técnicas adequadas de proteção de dados — incluindo backup e recuperação — estarão em posição vulnerável em caso de incidente.
Além da LGPD, empresas brasileiras podem estar sujeitas a outras regulamentações que impactam o backup, como os requisitos do BACEN para instituições financeiras, a norma ISO 27001 de segurança da informação e o padrão PCI DSS para proteção de dados de cartão. Uma estratégia de compliance eficaz deve considerar todas as regulamentações aplicáveis ao seu setor.
Requisitos da LGPD Aplicáveis ao Backup
Segurança e Sigilo (Art. 46)
A LGPD exige que agentes de tratamento adotem medidas de segurança, técnicas e administrativas, aptas a proteger dados pessoais de acessos não autorizados e de situações acidentais ou ilícitas de destruição, perda, alteração, comunicação ou qualquer forma de tratamento inadequado ou ilícito. No contexto de backup, isso se traduz em:
- Criptografia: dados de backup devem ser criptografados em trânsito e em repouso
- Controle de acesso: apenas pessoal autorizado deve ter acesso aos backups
- Integridade: mecanismos para verificar que os backups não foram alterados ou corrompidos
- Disponibilidade: capacidade de restaurar dados quando necessário para continuidade do tratamento — o que exige uma estratégia de Disaster Recovery
Comunicação de Incidentes (Art. 48)
O controlador deve comunicar à ANPD e ao titular a ocorrência de incidente de segurança que possa acarretar risco ou dano relevante aos titulares. Isso inclui ataques de ransomware que comprometam backups contendo dados pessoais, vazamentos de dados de backup, e perda não autorizada de mídias de backup.
A comunicação deve ser feita em prazo razoável e incluir: descrição da natureza dos dados pessoais afetados, informações sobre os titulares envolvidos, medidas técnicas de segurança utilizadas, riscos relacionados ao incidente, e medidas adotadas para reverter ou mitigar os efeitos.
Término do Tratamento e Eliminação (Art. 15 e 16)
Dados pessoais devem ser eliminados após o término do tratamento, ressalvadas as hipóteses legais de conservação. Isso tem implicações diretas na política de retenção de backup: não é adequado manter backups com dados pessoais por tempo indeterminado. A empresa deve definir períodos de retenção alinhados com a finalidade do tratamento e as obrigações legais de guarda.
Registro de Operações (Art. 37)
O controlador e o operador devem manter registro das operações de tratamento de dados pessoais. Operações de backup e restauração envolvendo dados pessoais — incluindo backup de bancos de dados, backup de e-mail e backup de SharePoint — devem ser registradas em trilhas de auditoria que documentem quem realizou a operação, quando, quais dados foram envolvidos e com que finalidade.
Políticas de Retenção de Dados em Backup
Uma das áreas mais complexas da conformidade LGPD no backup é a definição de políticas de retenção que equilibrem proteção de dados, requisitos legais e necessidades operacionais.
Princípios para Definir Retenção
- Necessidade: retenha apenas pelo tempo necessário para a finalidade do backup
- Obrigações legais: considere prazos legais de guarda (trabalhista: 5 anos; tributário: 5 anos; civil: 10 anos; saúde: 20 anos; etc.)
- Proporcionalidade: o período de retenção deve ser proporcional ao risco e à necessidade
- Documentação: justifique e documente as decisões de retenção para cada tipo de dado
Tabela de Retenção por Tipo de Dado
Recomenda-se criar uma tabela de temporalidade que classifique os dados por tipo e defina o período de retenção em backup para cada categoria:
- Dados trabalhistas: 5 anos após encerramento do contrato (CLT)
- Dados fiscais e tributários: 5 anos (CTN)
- Dados de saúde: 20 anos (CFM)
- Dados de clientes (contratos): duração do contrato + prazo prescricional aplicável
- Dados de marketing (consentimento): até revogação do consentimento + prazo para eliminação
- Dados operacionais sem dados pessoais: conforme necessidade técnica
Eliminação Segura
Quando o período de retenção expira, os dados devem ser eliminados de forma segura e irreversível. Para mídias físicas (discos, fitas), isso pode envolver degaussing, destruição física ou sobrescrita segura. Para backups em nuvem, a exclusão deve ser verificada e documentada, incluindo a eliminação de dados em réplicas e caches.
Criptografia de Backup para Conformidade
A criptografia é uma das medidas técnicas mais importantes para conformidade com a LGPD e deve ser aplicada em múltiplas camadas:
Criptografia em Trânsito
Todos os dados transferidos durante operações de backup devem ser protegidos por criptografia em trânsito (TLS 1.2 ou superior). Isso é especialmente importante para backup na nuvem, onde os dados trafegam pela internet, e para replicação entre sites.
Criptografia em Repouso
Os dados armazenados nos repositórios de backup devem ser criptografados com algoritmos fortes (AES-256 é o padrão recomendado). Isso se aplica tanto a servidores Windows quanto a servidores Linux. Isso garante que, mesmo em caso de acesso não autorizado ao storage físico, os dados permaneçam ilegíveis.
Gerenciamento de Chaves
A segurança da criptografia depende da proteção das chaves. Implemente gerenciamento de chaves robusto com rotação periódica, armazenamento seguro (preferencialmente em HSM — Hardware Security Module), separação de responsabilidades entre quem gerencia os backups e quem gerencia as chaves, e procedimentos documentados para recuperação de chaves em caso de desastre.
Trilhas de Auditoria e Monitoramento
A capacidade de demonstrar conformidade depende de trilhas de auditoria completas e confiáveis. Para operações de backup, os registros devem incluir:
- Execução de backups: data, hora, sistemas protegidos, volume de dados, sucesso ou falha
- Operações de restauração: quem solicitou, qual dado foi restaurado, finalidade, aprovação
- Acesso ao console de backup: logins, tentativas de acesso, alterações de configuração
- Exclusão de dados: quando dados foram eliminados, quem autorizou, método utilizado
- Testes de restauração: data, escopo, resultados, tempo de recuperação
- Incidentes: falhas de backup, tentativas de acesso não autorizado, anomalias detectadas
Esses registros devem ser mantidos por período adequado (recomenda-se pelo menos 5 anos) e protegidos contra alteração, preferencialmente em formato imutável.
Direito de Exclusão e Backups: O Desafio Técnico
O direito de exclusão (eliminação) previsto no Art. 18 da LGPD é um dos maiores desafios técnicos para a estratégia de backup. Quando um titular solicita a exclusão de seus dados pessoais, como isso se aplica aos backups existentes?
A Complexidade do Problema
Backups tradicionais são conjuntos monolíticos de dados — não é possível excluir um registro específico de um backup sem comprometer sua integridade ou refazê-lo completamente. Isso é especialmente verdadeiro para backups de imagem de servidor e backups de banco de dados.
Abordagem Recomendada
- Exclusão imediata nos sistemas de produção: atenda a solicitação excluindo os dados dos sistemas ativos
- Registro da solicitação: mantenha um log de exclusões solicitadas com identificação dos dados
- Expiração natural do backup: permita que os backups contendo os dados expirem conforme a política de retenção
- Procedimento de restauração: em caso de restauração de backup, aplique as exclusões registradas antes de disponibilizar os dados em produção
- Documentação: registre todo o processo para demonstrar diligência à ANPD
Essa abordagem é aceita pela maioria dos especialistas e reguladores, pois equilibra o direito do titular com a viabilidade técnica, desde que o período de retenção dos backups seja razoável e documentado.
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Iniciar Teste Grátis Falar com EspecialistaPenalidades da ANPD e Como se Proteger
A ANPD pode aplicar sanções administrativas em caso de infrações à LGPD. As penalidades previstas são progressivas:
- Advertência: com prazo para adoção de medidas corretivas
- Multa simples: até 2% do faturamento no último exercício, limitada a R$ 50 milhões por infração
- Multa diária: para forçar o cumprimento de obrigação específica
- Publicização da infração: dano reputacional significativo
- Bloqueio ou eliminação dos dados: pode paralisar operações
- Suspensão ou proibição do tratamento: impacto operacional severo
Fatores Atenuantes
A ANPD considera fatores atenuantes na dosimetria das sanções. Para a estratégia de backup, os seguintes pontos podem reduzir a severidade de penalidades:
- Demonstrar implementação de medidas técnicas de proteção (criptografia, controle de acesso, backup imutável)
- Ter um plano de resposta a incidentes documentado e testado
- Manter programa de governança em privacidade com políticas de backup alinhadas à LGPD
- Comunicar incidentes proativamente à ANPD e aos titulares
- Demonstrar boa-fé e cooperação na apuração de incidentes
Transferência Internacional de Dados em Backup
Quando o backup é armazenado em data centers fora do Brasil — comum em soluções de backup na nuvem — configura-se transferência internacional de dados pessoais, regulada pelo Art. 33 da LGPD. As hipóteses permitidas incluem:
- Países ou organismos internacionais com nível adequado de proteção
- Cláusulas contratuais específicas ou cláusulas-padrão
- Normas corporativas globais
- Consentimento específico e em destaque do titular
Para empresas que utilizam provedores de nuvem globais, é essencial verificar onde os dados de backup serão armazenados e garantir que a transferência esteja amparada por uma das hipóteses legais. Muitos provedores já oferecem opção de residência de dados no Brasil.
Checklist de Conformidade LGPD para Backup
- Mapear quais dados pessoais estão presentes nos backups
- Definir e documentar política de retenção alinhada à LGPD
- Implementar criptografia AES-256 em trânsito e em repouso
- Configurar controle de acesso com autenticação multifator
- Manter trilhas de auditoria completas de operações de backup
- Criar procedimento para atender solicitações de exclusão
- Documentar plano de resposta a incidentes envolvendo backup
- Verificar conformidade na transferência internacional de dados
- Nomear DPO (Encarregado de Proteção de Dados) com visibilidade sobre backup
- Adotar backup híbrido para manter cópias locais e na nuvem com controle jurisdicional
- Realizar avaliação de impacto (RIPD) para operações de backup de alto risco
- Treinar equipe de TI sobre obrigações da LGPD no contexto de backup
- Revisar contratos com provedores de backup para incluir cláusulas de proteção de dados
LGPD por Setor: Requisitos Específicos de Backup
Cada setor econômico possui particularidades regulatórias que impactam diretamente a estratégia de backup. Além da LGPD, muitas indústrias estão sujeitas a regulamentações setoriais que definem requisitos adicionais de proteção, retenção e auditoria de dados. A tabela abaixo resume os principais requisitos por setor:
| Setor | Regulação Adicional | Dados Sensíveis | Retenção Mínima | Requisito de Backup |
|---|---|---|---|---|
| Saúde | CFM, ANS, ANVISA | Prontuários, exames, prescrições, dados biométricos | 20 anos (prontuários) | Criptografia obrigatória, backup imutável, auditoria completa de acessos, segregação de dados por paciente |
| Financeiro / Fintech | BACEN, CVM, PCI DSS | Dados bancários, transações, dados de cartão, scores de crédito | 5 a 10 anos (BACEN) | Backup diário mínimo, retenção longa, trilha de auditoria completa, testes de restauração trimestrais |
| Contabilidade | CFC, Receita Federal, SPED | Dados fiscais, demonstrações contábeis, folha de pagamento | 5 anos (CTN) a 10 anos (civil) | Backup com integridade verificável, retenção alinhada ao prazo prescricional, eliminação documentada |
| Educação | MEC, CAPES, Lei do Marco Legal da Primeira Infância | Dados de menores, histórico acadêmico, avaliações, dados de saúde escolar | 5 a 100 anos (histórico permanente) | Proteção reforçada para dados de menores (Art. 14 LGPD), consentimento parental, segregação de acesso |
| E-commerce | CDC, Marco Civil da Internet, Decreto 7.962 | Dados de pagamento, endereços, histórico de compras, cookies | 5 anos (CDC) | Backup de bancos de dados transacionais, proteção de dados de cartão (PCI DSS), logs de acesso |
| Advocacia | OAB, Estatuto da Advocacia | Processos judiciais, dados de clientes, estratégias jurídicas, comunicações privilegiadas | 5 a 20 anos (prazo prescricional variável) | Sigilo profissional absoluto, criptografia ponta a ponta, controle de acesso por caso/cliente |
| Governo | LAI, Decreto 10.332, IN SGD/ME | Dados de cidadãos, processos administrativos, dados classificados | Permanente (documentos de valor histórico) | Soberania de dados (armazenamento em território nacional), backup imutável, auditoria ampla, alta disponibilidade |
Cada setor exige uma abordagem personalizada. Não existe uma solução genérica de backup que atenda a todos os requisitos setoriais simultaneamente. A estratégia ideal combina o entendimento das regulamentações específicas com a flexibilidade da infraestrutura de backup para implementar políticas diferenciadas por tipo de dado e setor de atuação.
Roadmap de Adequação LGPD em Backup: 90 Dias
Adequar a infraestrutura de backup à LGPD pode parecer uma tarefa monumental, mas é perfeitamente realizável com um plano estruturado. O roadmap abaixo divide o processo em três fases de 30 dias, permitindo uma implementação progressiva sem interromper as operações.
Mês 1 — Avaliação e Diagnóstico
O primeiro mês é dedicado a entender a situação atual. Sem um diagnóstico preciso, qualquer implementação será incompleta ou mal direcionada.
- Semana 1-2: Mapeamento de dados pessoais nos backups. Identifique quais sistemas contêm dados pessoais (servidores de e-mail, bancos de dados, SharePoint, Microsoft 365, Google Workspace) e classifique os dados por categoria: dados pessoais comuns, dados sensíveis (saúde, biometria, religião) e dados de menores. Documente o volume e a localização de cada conjunto.
- Semana 2-3: Auditoria da infraestrutura atual de backup. Avalie a solução de backup em uso: suporta criptografia AES-256? Possui trilhas de auditoria? Permite políticas de retenção granulares? Oferece controle de acesso com MFA? Verifique onde os backups estão armazenados (local, nuvem, híbrido) e se há transferência internacional de dados.
- Semana 3-4: Análise de gap e priorização. Compare a situação atual com os requisitos da LGPD e das regulamentações setoriais aplicáveis. Crie uma matriz de risco que classifique cada lacuna por probabilidade de incidente e impacto potencial. Priorize as correções que reduzem o maior risco com menor esforço. Documente tudo — essa análise será evidência de diligência perante a ANPD.
Mês 2 — Implementação Técnica
Com o diagnóstico em mãos, o segundo mês foca na implementação das medidas técnicas prioritárias.
- Semana 5-6: Criptografia e segurança de dados. Ative a criptografia AES-256 em trânsito e em repouso para todos os backups que contenham dados pessoais. Configure o gerenciamento de chaves com rotação periódica. Implemente autenticação multifator (MFA) para acesso ao console de backup e separe as permissões de administração das permissões de restauração.
- Semana 6-7: Controle de acesso e segregação. Defina perfis de acesso granulares: quem pode executar backups, quem pode restaurar dados, quem pode excluir backups e quem pode alterar configurações. Implemente o princípio do menor privilégio. Configure alertas automáticos para acessos fora do horário comercial ou tentativas de acesso negadas.
- Semana 7-8: Políticas de retenção e eliminação. Configure políticas de retenção diferenciadas por tipo de dado, alinhadas à tabela de temporalidade criada no Mês 1. Implemente a exclusão automática de backups expirados com verificação e registro. Crie o procedimento documentado para atender solicitações de exclusão de dados pessoais em backups.
Mês 3 — Validação e Operacionalização
O terceiro mês garante que tudo funcione na prática e que a equipe esteja preparada para manter a conformidade de forma contínua.
- Semana 9-10: Testes de restauração e validação. Execute testes completos de restauração para cada tipo de dado protegido. Valide que a criptografia está funcionando corretamente (tente acessar dados sem a chave). Teste o procedimento de exclusão de dados pós-restauração. Meça o RTO e RPO reais e compare com os objetivos definidos. Documente todos os resultados.
- Semana 10-11: Documentação de procedimentos. Formalize o plano de resposta a incidentes envolvendo backup. Documente o procedimento para atender direitos dos titulares (exclusão, portabilidade, acesso). Crie o registro de operações de tratamento (Art. 37) com todos os fluxos de backup mapeados. Prepare o relatório de impacto à proteção de dados (RIPD) para operações de backup de alto risco.
- Semana 11-12: Treinamento da equipe e revisão final. Treine a equipe de TI sobre as novas políticas e procedimentos de backup em conformidade com a LGPD. Realize um exercício simulado de incidente de segurança envolvendo backups. Revise toda a documentação com o DPO (Encarregado de Proteção de Dados). Estabeleça um calendário de revisão trimestral para manter a conformidade atualizada.
Ao final dos 90 dias, sua organização terá uma infraestrutura de backup em conformidade com a LGPD, com evidências documentadas que demonstram diligência perante a ANPD. O trabalho não termina aqui — a conformidade é um processo contínuo que exige revisão periódica, especialmente diante de novas regulamentações e mudanças na infraestrutura de TI.
LGPD vs GDPR vs CCPA: Impacto no Backup
Empresas brasileiras com operações internacionais ou que atendem clientes estrangeiros podem estar sujeitas a múltiplas regulamentações de proteção de dados simultaneamente. Entender as diferenças entre LGPD, GDPR e CCPA é essencial para definir uma estratégia de backup que atenda a todas elas. A tabela abaixo compara os principais aspectos que impactam diretamente o backup:
| Aspecto | LGPD (Brasil) | GDPR (Europa) | CCPA (Califórnia) |
|---|---|---|---|
| Criptografia | Recomendada como medida técnica adequada; ausência pode ser considerada negligência pela ANPD | Explicitamente mencionada como medida técnica apropriada (Art. 32); fator atenuante em caso de vazamento | Não exigida explicitamente, mas sua ausência configura falha de segurança razoável sob a lei californiana |
| Retenção de dados | Dados mantidos apenas pelo tempo necessário à finalidade; eliminação obrigatória após término do tratamento | Princípio de limitação de armazenamento (Art. 5); dados mantidos apenas pelo período necessário | Sem prazo específico de retenção; empresas devem divulgar por quanto tempo retêm dados na política de privacidade |
| Direito de exclusão | Art. 18: titular pode solicitar eliminação; exceções para cumprimento de obrigação legal e pesquisa (anonimizada) | Art. 17: direito ao apagamento ("direito de ser esquecido"); exceções similares à LGPD | Direito de deletar informações pessoais; exceções amplas incluem segurança, obrigações legais e uso interno compatível |
| Notificação de incidente | Comunicação à ANPD e titulares em "prazo razoável" (recomendação: 3 dias úteis); apenas se houver risco ou dano relevante | Notificação à autoridade em até 72 horas; notificação aos titulares se houver alto risco aos direitos e liberdades | Sem obrigação federal de notificação por CCPA; porém a lei estadual da Califórnia (Civil Code 1798.82) exige notificação "sem atraso irrazoável" |
| Multas máximas | Até 2% do faturamento, limitado a R$ 50 milhões por infração | Até 4% do faturamento global anual ou EUR 20 milhões (o que for maior) | USD 2.500 por violação não intencional; USD 7.500 por violação intencional; sem teto máximo (cumulativo por registro) |
Para empresas que precisam atender a múltiplas regulamentações, a abordagem mais eficiente é adotar o padrão mais rigoroso em cada aspecto como base da política de backup. Na prática, isso geralmente significa: implementar criptografia AES-256 (exigência mais forte do GDPR), definir retenção limitada e documentada (convergência LGPD/GDPR), criar procedimentos robustos de exclusão com registro (necessário em todas), e manter capacidade de notificação em 72 horas (padrão GDPR, que cobre as demais). Uma solução de backup híbrido com data centers em diferentes jurisdições pode facilitar o atendimento simultâneo a múltiplas regulamentações.
Casos Reais: Sanções da ANPD Relacionadas a Dados
Desde que a ANPD iniciou a aplicação de sanções administrativas em 2023, diversos casos ilustram as consequências de falhas na proteção de dados — muitas das quais poderiam ter sido mitigadas com uma estratégia de backup e segurança adequada. Os exemplos abaixo servem como alerta para empresas de todos os portes:
Operadora de telecomunicações — tratamento sem base legal
Uma grande operadora de telecomunicações foi sancionada pela ANPD por tratar dados pessoais de milhões de clientes sem base legal adequada e sem medidas de segurança proporcionais ao volume de dados. A empresa recebeu advertência e determinação para adequar suas práticas. O caso evidenciou que organizações com grandes volumes de dados pessoais — exatamente o cenário que exige backups robustos — precisam demonstrar medidas técnicas e organizacionais proporcionais. Um sistema de backup com criptografia, controle de acesso granular e trilhas de auditoria teria sido evidência atenuante significativa na dosimetria da sanção.
Órgão público municipal — incidente de segurança sem comunicação
Um órgão público municipal sofreu um incidente de segurança que resultou na exposição de dados pessoais de cidadãos. A ANPD identificou não apenas a vulnerabilidade técnica que permitiu o incidente, mas também a ausência de comunicação tempestiva à autoridade e aos titulares afetados. A falta de um plano de resposta a incidentes documentado agravou a situação. Se a instituição tivesse backups imutáveis e um procedimento de Disaster Recovery testado, o tempo de resposta teria sido significativamente menor e o impacto aos titulares, mitigado.
Empresa de pequeno porte — microempresa sancionada por negligência
Em decisão que chamou atenção do mercado, a ANPD aplicou multa a uma microempresa por não implementar medidas básicas de segurança da informação para proteger dados pessoais de clientes. O caso demonstrou que a ANPD fiscaliza empresas de todos os portes e que o tamanho da organização não isenta da obrigação de proteger dados. A multa, embora menor que o teto legal, representou impacto financeiro relevante para o negócio. A lição é clara: mesmo pequenas empresas precisam de backup básico com criptografia, controle de acesso e política de retenção documentada.
Instituição de ensino — dados de menores expostos
Uma instituição de ensino foi investigada pela ANPD após dados pessoais de alunos menores de idade serem acessados por pessoas não autorizadas. A LGPD confere proteção especial a dados de crianças e adolescentes (Art. 14), e a ANPD tratou o caso com rigor proporcional à vulnerabilidade dos titulares. A ausência de controles de acesso adequados nos sistemas de backup e a falta de segregação entre dados de diferentes categorias de titulares foram fatores agravantes. O caso reforça a necessidade de implementar controle de acesso baseado em função (RBAC) e criptografia em todos os backups que contenham dados de menores.
Esses casos reais demonstram que a ANPD está ativa e fiscalizando organizações de todos os setores e portes. A implementação de uma estratégia de backup em conformidade com a LGPD — com criptografia, controle de acesso, trilhas de auditoria e proteção contra ransomware — não é apenas uma boa prática: é uma proteção legal concreta que pode atenuar sanções e demonstrar diligência perante a autoridade reguladora.
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